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PROGRAMA IV

ROTEIRO 23

JUSTIÇA DIVINA
LIVRE-ARBÍTRIO

OBJETIVOS ESPECÍFICOS
Rever os conceitos de livre-arbítrio e responsabilidade.
Exemplificar conseqüências do mau emprego do livre-arbítrio.

IDÉIAS PRINCIPAIS
O homem "(...) que tem a liberdade de pensar, tem igualmente a de obrar. Sem o livre-arbítrio, o homem seria maquina." (01)
"(...) Há liberdade de agir, desde que haja vontade de fazê-lo. Nas primeiras fases da vida, quase nula é a liberdade, que se desenvolve e muda de objeto com o desenvolvimento das faculdades. Estando seus pensamentos em concordância com o que a sua idade reclama, a criança aplica o seu livre-arbítrio àquilo que lhe e necessário." (Q2)
(...) O livre-arbítrio não é absoluto, mas, sim, relativo - relativo à posição ocupada pelo homem na escala dos valores espirituais. (~" (04)
"(...) Pelo uso do livre-arbítrio, a alma fixa seu destino, prepara suas alegrias ou suas dores. ~
(...) O destino é resultante, através das vidas sucessivas, de nossas próprias ações e livres resoluções. (...)" (05) -
"Na esfera individual o livre-arbítrio é pois o único elemento dominante. A existência de cada homem e resultante de seus atos e pensamentos. (...)" (06)

FONTES DE CONSULTA

BÁSICAS
01 - Kardec, Allan. Da Lei da Liberdade. In:—. O Livro dos Espíritos. Trad. de Guillon Ribeiro. 57. ed. Rio de Janeiro, FEB, 1783. Parte 3-, questão 843, p. 387.
02 - Op. Cit., questão 844, p. 388.
03 - DENIS, León. O livre-arbítrio. In: - . O Problema do Ser do Destino e da Dor. 1Q. ed. Rio de Janeiro, FEB , 1977, Parte 3ª'
04 - MARTINS PERALVA. Espiritismo e livre-arbítrio. In: O Pensamento de Emmanuel. 2. ed. Rio de Janeiro, FEB, 1978. p. 199-201
05 - Op. Cit., p. 200.
06 - XAVIER, Francisco Cândido. O Elemento Dominante. In: Palavras do Infinito Pelo Espirito Humberto de Campos. 5. ed. São Paulo, LAKE, 1978, p. 95
07 - O livre-arbítrio e a Fatalidade In - . Palavras do Infinito; Pelo Espirito Humberto de Campos 5. ed. São Paulo, LAKE, 1978, p. 94-95
08. - Livres, mas responsáveis. In: - Encontro Marcado Pelo Espírito Emmanuel. 3. ed. Rio de Janeiro, . FEB, 1978. p 160-161.
09 - Op. Cit., p. 161-162.
10 - Op. Cit., p. 162.
11 - Op. Cit., p. 163.

LIVRE-ARBÍTRIO

"(...) O homem está subordinado ao seu livre-arbítrio; mas sua existência está também submetida a determinadas circunstancias de acordo com o mapa de seus serviços e provações na Terra, e delineado pela individualidade em harmonia com as opiniões cos seus guias espirituais antes da reencarnação.
As condições sociais, a moléstias, os ambientes viciosos, o cerco das tentações, os dissabores, são circunstancias da existência do homem. Entre elas, porem, está a sua vontade soberana.
· Pode nascer num ambiente de humildade e miséria, .procurando vencer pela perseverança no trabalho e triunfando das deficiências encontradas; pode suportar as enfermidades com serenidade de ânimo. e resignação; pode ser tentado de todas as maneiras mas só se tornará um criminoso se quiser". (07)
O homem é, pois, livre para agir, para escolher o tipo de vida que queira levar. As dores, as dificuldades existentes na sua vida são provas e expiações que tem como conseqüência do uso indevido, incorreto do livre-arbítrio em existências anteriores.
Se o homem ( ..)" tem a liberdade de pensar, tem igualmente a de obrar. Sem o livre-arbítrio, o homem seria máquina." (01) "A liberdade é a condição necessária da alma humana que, sem ela, não poderia construir seu destino (...)
A primeira vista, a liberdade do homem parece muito limitada no círculo de fatalidades que o encerra: necessidades físicas, condições sociais, interesses ou instintos. Mas, considerando a questão mais de perto, vê-se que esta liberdade é sempre suficiente para permitir que a alma quebre este círculo e escape às forças opressoras.
A liberdade e a responsabilidade são correlativas no ser e aumentam com sua elevação; é a responsabilidade do homem que faz sua dignidade e moralidade. Sem ela, não seria ele mais do que um autômato, um joguete das forças ambientes: a noção de moralidade é inseparável da de liberdade. (...)" (03)
"(...) Acrescentemos, porem) que o homem é livre, mas responsável, e pode realizar o que deseje, mas estará ligado inevitavelmente ao fruto de suas próprias ações." (08) .
Analisemos, a seguir, o papel do livre-arbítrio no conceito de alguns campos do conhecimento humano:
"(.,.) Estudemo-lo, inicialmente, com base em renomados penólogos.
Segundo a Escola Clássica, o homem dotado de inteligência e livre-arbítrio é penalmente responsável, eis que:
a) - tem a faculdade de analisar e discernir
b) - tem o poder de livre deliberação.

A sociedade tem, pois, o direito de punir, porque o criminoso tem vontade para delinqüir.
De acordo com a Escola Antropológica, o homem age por força de funções somático-medulares, glandulares ou cerebrais, Assim,
a) - O crime não é resultado da livre vontade do delinqüente, mas de fatores biológicos. Diverge, como vemos, das escolas precedentes.

A Escola Critica, Eclética ou Sociológica diz:
a) - O crime resulta não da livre vontade do delinqüente, como querem os Clássicos;
b) - nem da imposição de reflexos biológicos, herdados ou adquiridos, como querem os Antropologistas, mas exclusivamente, de FATORES SOCIAIS.

O Espiritismo tem explicação própria. Tem conceitos essenciais que se afinam, de alguma sorte, com as diversas escolas, indo, contudo, bem mais além, em virtude da reencarnação. (...)" (04) O Espiritismo esclarece que:
1. Pelo uso do livre-arbítrio, construímos o nosso destino que pode ser de dores ou de alegrias.
2. Quanto mais livre é o Espirito, mais responsável ele é.
3. A fatalidade, ou determinismo, pode ser traduzida pela escolha das provas feita pelo Espírito antes de encarnar.
Se há escolha de provas antes do renascimento corporal, o Espírito estabelece para si uma espécie de destino; daí o livre-arbítrio não ter uma medida absoluta, mas relativa.
Inúmeros são os exemplos da falência do Espirito pelo uso indevido - para o mal - do livre-arbítrio; mas vejamos alguns:
Com relação à posse de bens materiais: "(...) o homem e livre para reter quaisquer posses que as legislações terrestres lhos facultem, de acordo com a sua diligencia na ação ou seu direito transito rio, (...), mas, se abusa delas, criando a penúria dos semelhantes, de modo a favorecer os próprios excessos encontrará nas conseqüências disso a fieira de provações com que aprenderá a acender em si mesmo a luz da abnegação. (...)" (08)
Com relação ao estudo, "(...) o homem é livre para ler e escrever, ensinar ou estudar tudo o que quiser (...); mas, se coloca os valores da inteligência em apoio do mal, deteriorando a existência dos companheiros da Humanidade com o objetivo de acentuar o próprio orgulho, encontrará nas conseqüências disso a fieira de provações com que aprenderá a acender em si mesmo a luz do discernimento. (...)" (09)
Com relação ao trabalho, "(...) o homem é livre para abraçar as tarefas a que se afeiçoe (...) mas se malversa o dom de empreender e de agir, (...) encontrará nas conseqüências disso a fieira de provações com que aprenderá a acender em si mesmo a luz do serviço aos semelhantes. (...)" (09)

Finalmente, com relação ao Sexo, (.,.) O homem é livre para dar às suas energias e impulsos sexuais a direção que prefira (...); mas se para lisonjear os próprios sentidos transforma os recursos genésicos em dor e desequilíbrio, angustia ou desesperação para os semelhantes, pela injuria aos sentimentos alheios ou pela deslealdade e desrespeito nos compromissos e ajustes afetivos, (...) encontrará nas conseqüências disso a fieira de provações com que aprenderá a acender em si mesmo a luz do amor puro. (...) n (10)
Como se vê, "(...) todos somos livres para desejar, escolher, fazer e obter, mas todos somos também constrangidos a entrar nos resultados de nossas próprias obras. (...)" (11)

ANEXO
DOLOROSA PERDA

Dentro da noite, defrontamos com aflito coração materno. A entidade, que nos dirigia a palavra, infundia compaixão pela facies de horrível sofrimento.
– Calderaro! Calderaro! - rogou, ansiosa - ampara minha filha, minha desventurada filha'
Oh! teria piorado? - inquiriu o instrutor, evidenciando conhecimento da situação.
– Muito! muito !... — gemeram os trementes lábios da mãe aflita—; observo que enlouqueceu de todo...
– Já perdeu a grande oportunidade?
– Ainda não—informou a interlocutora mas encontra-se à beira de extremo desastre.
Prometeu o orientador correr ~ doente em breves minutos, e voltamos à intimidade.
Interessando-me no assunto, o atencioso Assistente sumariou o fato.
– Trata-se de lamentável ocorrência — explicou-me, bondoso -, na qual figuram a leviandade e o ódio como elementos perversores. A irmã que se despediu, há momentos, deixou uma filha na Crosta Planetária, há oito anos. Criada com mimos excessivos, a jovem desenvolveu-se na ignorância do trabalho e da responsabilidade, não obstante pertencer a nobilíssimo quadro social. Filha única, entregue desde muito cedo ao capricho pernicioso, tão logo se achou sem a materna assistência no plano carnal, dominou governantes, subornou criadas, burlou a vigilância paterna e, cercada de facilidades materiais, precipitou-se, aos vinte anos, nos desvarios da vida mundana. Desprotegida, assim, pelas circunstancias, não se preparou convenientemente para enfrentar os problemas do resgate próprio. Sem a proteção espiritual peculiar à pobreza, sem os abençoados estímulos dos obstáculos materiais, e tendo, contra as suas necessidades intimas, a profunda beleza transitória do rosto, a pobrezinha renasceu, seguida de perto, não por um inimigo propriamente dito, mas por cúmplice de faltas graves, desde muito desencarnado, ao qual se vinculara por tremendos laços de ódio, em passado próximo. Foi assim que, abusando da !liberdade, em ociosidade reprovável, adquiriu deveres da maternidade sem a custódia do casamento. Reconhecendo-se agora nesta situação, aos vinte e cinco anos, solteira, rica e prestigiada pelo nome da família, deplora tardiamente os compromissos assumidos e luta, com desespero, por desfazer-se do filhinho imaturo, o mesmo comparsa do pretérito a que me referi; esse infeliz, por "acréscimo de misericórdia divina ", busca destarte aproveitar o erro da ex-companheira para a realização de algum serviço redentor, com a supervisão dos nossos
Ante o espanto que inopinadamente me assaltara, sabendo eu que a reencarnação constitui sempre uma bênção que se concretiza com a ajuda superior, o Assistente afiançou, tranqüilizando-me:
– Deus é o Pai amoroso e sábio que sempre nos converte as próprias faltas em remédios amargos' que nos curem e fortaleçam. Foi assim que Cecília, a demente que dentro em pouco visitaremos, recolheu da sua leviandade mesma o extremo recurso, capaz de retificar-lhe a vida... Entretanto, a infortunada criatura reage ferozmente ao socorro divino, com uma conduta lastimável e perversa. Coopero nos trabalhos de assistência a ela, de algumas semanas para cá, em virtude das reiteradas e comoventes intercessões materna junto a nossos superiores; todavia, acalento vaga esperança numa reabilitação próxima. Os laços entre mãe e filho presuntivo são de amargura e de ódio, consubstanciando energias desequilibrantes; tais vínculos traduzem ocorrência em que o espírito feminino há que recolher-se ao santuário da renúncia e da esperança, se pretende a vitória. Para isso, para nivelar caminhos salvadores e aperfeiçoar sentimentos, o Supremo Senhor criou o tépido e veludoso ninho do amor materno; contudo, quando a mulher se rebela, insensível às sublimes vibrações da inspiração divina, é difícil, senão impossível, executar o programa delineado. A infortunada criatura, dando asas ao condenável anseio, buscou socorrer-se de médicos que, amparados de nosso plano, se negaram a satisfazer-lhe o criminoso intento; valeu-se, então, de drogas venenosas, das quais vem abusando intensivamente. A situação mental dela é de lastimável desvario.

Findo o breve preâmbulo, Calderaro continuou:
– Mas, não temos minuto a perder. Visitemo-la.
Decorridos alguns instantes, penetrávamos aposento confortável e perfumado.
Estirada no leito, jovem mulher debatia-se em convulsões atrozes. Ao seu lado, achavam-se a entidade materna, na esfera Invisível aos olhos carnais, e uma enfermeira terrestre, dessas que, à força de presenciar catástrofes biológicas e dramas morais, se tornam menos sensíveis à dor alheia.
A genitora da enferma adiantou-se e informou-nos:
– A situação é muito grave! ajudem-na, por piedade! Minha presença aqui se limita a impedir o acesso de elementos perturbadores que prosseguem, implacáveis em ronda sinistra.
O Assistente inclinou-se para a doente, calmo e atenciosos, e recomendou-me cooperar no exame particular do quadro fisiológico.
A paisagem orgânica era das mais comoventes.
A compaixão fraterna dispensar-nos-á da triste narrativa referente ao embrião prestes a ser expulso.
Circunscrito à tese de medicação a mentes alucinadas. cabe-nos apenas dizer que a situação da jovem era impressionante e deplorável.
Todos os centros endócrinos estavam em desordem, e os órgãos autônomos trabalhavam aceleradamente. O coração acusava estranha arritmia, e debalde as glândulas sudoríparas se esforçavam por expulsar as toxinas em verdadeira torrente invasora. Nos lobos frontais, a sombra era completa; no córtex encefálico, a perturbação era manifesta; somente nos gânglios basais havia suprema concentração de energias mentais, fazendo-me perceber que a infeliz criatura se recolhera no campo mais baixo do ser, dominada pelos impulsos desintegradores dos próprios sentimentos, transviados e incultos. Dos gânglios basais, onde se aglomeravam as mais fortes irradiações da mente alucinada, desciam estiletes escuros, que assaltavam as trompas e os ovários, penetrando a câmara vital quais tenuísslrnos venábulos de treva e incidindo sobre a organização embrionária de quatro meses.
O quadro era horrível de ver-se.
Buscando sintonizar-me com a enferma, ouvia-lhe as afirmativas cruéis, no campo do pensamento:
– Odeio!... odeio este filho intruso que não pedi à vida!... Expulsá-lo-ei!... expulsá-lo-ei!...
A mente do filhinho, em processo de reencarnação, como se fora violentada num sono brando, suplicava, chorosa:
– Poupa-me! poupa-me! quero acordar no trabalho! quero viver e reajustar o destino... ajuda-me! resgatarei minha dívida!... pagar-te-ei com amor. . ., não me expulses ! tem caridade!, . .
– Nunca! nunca! Amaldiçoado sejas! – dizia a desventurada, mentalmente – ; pretiro morrer a receber-te nos braços! envenenas-me a vida, perturbas-me a estrada! detesto-te morreras !
E os raios trevosos continuavam descendo, a jacto continuo.
Calderaro ergueu a cabeça respeitável, encarou-me de frente e perguntou:
– Compreendes a extensão da tragédia?
Respondi afirmativamente, sob indizível impressão.
Nesse instante de nossa angustiosa expectativa, Cecília dirigiu-se com decisão à enfermeira:
– Estou cansada, Liana, muitíssimo cansada, mas exijo a intervenção esta noite!
– Oh! mas assim, neste estado? – ponderou a outra.
– Sim, sim – tornou a doente, inquieta – ; não quero adiar essa intervenção. Os médicos negaram-se a fazê-la, mas eu conto com a tua dedicação. Meu pai não pode saber disso, e eu odeio esta situação que terminantemente não conservarei.
Calderaro pousou a destra na fronte da responsável pelos serviços de enfermagem, no intuito evidente de transmitir alguma providência conciliatória, e a enfermeira ponderou:
—Tentemos algum repouso, Cecília. Modificarás possivelmente esse plano.
— Não, não – objetou a imprevidente futura mãe, com mau humor indisfarçável – ; minha resolução é inabalável. Exijo a intervenção esta noite.
Mau grado à negativa peremptória, sorveu o cálice de sedativo que a companheira lhe oferecia, atendendo-nos a influência indireta.
Consumara-se a medida que meu instrutor desejava.
Parcialmente desligada do corpo físico, em compulsória modorra, pela atuação calmante do remédio, Calderaro aplicou-lhe fluidos magnéticos sobre disco foto-sensível do aparelho visual, e Cecília passou a ver-nos, embora imperfeitamente, detendo-se, admirada, na contemplação da genitora.
Reparei, contudo, que, se a mãezinha exuberava copioso pranto de comoção, a filha se mantinha impassível, não obstante o assombro que se Ihe estampara no olhar.
A matrona desencarnada avançou, abraçou-se a ela e pediu, ansiosa:
– Filha querida, venho a ti, para que te não abalances à sinistra aventura que planejas. Reconsidera a atitude mental e harmoniza-te com a vida. Recebe minhas lágrimas, como apelo do coração. Por piedade, ouve-me! não te precipites nas trevas, quando a mão divina te abre as portas da luz. Nunca é tarde para recomeçar, Cecília, e Deus, em seu infinito devotamento, transforma as nossas faltas em redes de salvação.
A mente desvairada da ouvinte recordou as convenções sociais, de modo vago, como se vivera um minuto de pesadelo indefinível.
A palavra materna, porém, continuou:
– Socorre-te da consciência antes de tudo! O preconceito é respeitável, a sociedade tem os seus princípios justos; entretanto, por vezes, filhinha, surge um momento na esfera do destino e da dor, em que devemos permanecer com Deus, exclusivamente. Não abandones a coragem, a fé, o desassombro... A maternidade, iluminada pelo amor e pelo sacrifício, é feliz em qualquer parte, ainda mesmo quando o mundo, ignorando a causa de nossas quedas, nos nega recursos à reabilitação, relegando-nos à reincidência e ao desamparo. Por agora, defrontarás com a tormenta de lágrimas, o temporal da incompreensão e da intolerância vergastará teu rosto... Contudo, a bonança voltará. O caminho é empedrado e árido, os espinhos dilaceram, mas terás, de encontro ao coração, um filhinho amoroso, indicando-te o futuro! Em verdade, Cecília, deverias erguer teu ninho de felicidade na árvore do equilíbrio, glorificando, em paz, a realização de cada dia e a benção de cada noite: entretanto, não pudeste esperar... Cedeste aos golpes infrenes da paixão, abandonaste o ideal aos primeiros impulsos do desejo. Ao invés de construir na tranqüilidade e na confiança, em bases seguras, elegeste o caminho perigoso da precipitação. Agora, é imprescindível evitar o despenhadeiro fatal, contornar a voragem traiçoeira, agarrando-te ao salva-vidas do supremo dever. Volta, pois, minha filha, à serenidade do principio, e resigna-te ante o novo aspecto que imprimiste ao próprio roteiro, aceitando o ministério da maternidade dolorosa com o sacrifício de encantadoras aspirações. No silêncio e na obscuridade da proscrição social, muitas vezes logramos a felicidade de conhecer-nos. O desprezo público, se precipita os mais fracos no esquecimento de si mesmos, ergue os fortes para Deus, sustentando-os no trilho anônimo das obrigações humildes, até à montanha da redenção. E. provável que teu pal. te amaldiçoe, que os nossos entes mais caros na Terra te menoscabem e tentem aviltar; no entanto, que martírio não enobrecerá o espírito disposto ao resgate dos seus débitos, com dedicação ao bem e a serenidade na dor? Não será melhor a coroa de espinhos na fronte do que o monte de brasas na consciência? O mal pode perder-nos ou transviar-nos; o bem retifica sempre. Além disto, se é certo que o padecimento da vergonha açoitará tua sensibilidade, a glória da maternidade resplenderá em teu caminho...Tuas lágrimas orvalharão uma flor querida e sublime, que será o teu filho, carne de carne, ser de teu ser. Que não fará no mundo mulher que sabe renunciar? A tormenta rugirá, mas sempre fora de teu coração, porque, lá dentro, no santuário divino do amor, encontrarás em ti mesma o poder da paz até a vitória...
A enferma escutava, quase indiferente, disposta a não capitular. Recebia os apelos maternos, sem alteração de atitude. A mãezinha, porém, mobilizando todos os recursos ao seu alcance, prosseguia após intervalo mais longo:
– Ouve, Cecília! Não te fiques nessa atitude impassível. Não isoles do cérebro o coração, a fim de que teu raciocínio se beneficie com o sentimento, de modo a venceres na prova áspera. Não te detenhas em primazlas da forma física, nem suponhas que a beleza espiritual e eterna erga seu templo no corpo de carne, em transito para o pó. A morte virá de qualquer modo, trazendo a realidade que confunde a ilusão. Não persistas no véu da mentira. Humilha-te na renúncia construtiva, toma a tua cruz e segue para a compreensão mais alta... No teu madeiro de sofrimento intimo, ouviras enternecedoras vozes de um filho abençoado... Se te alancear o abandono do mundo, será ele, junto de tl, o suave representante da Divindade... Que falta te fará o manto das fantasias, se dois pequeninos braços de veludo te cinjam, carinhosos e fiéis, conduzindo-te a renovação para a vida superior?
Foi então que Cecília, infundindo-me assombro pela agressividade, objetou em pensamento:
– Como não me disseste isso antes? Na Terra, sempre satisfazias meus desejos. Nunca me permitiste o trabalho, favoreceste-me o ócio, fizeste-me crer em posição mais elevada que a das outras criaturas, incutiste-me a suposição de que todos os privilégios especiais me eram devidos, não me preparaste, enfiem! Estou sozinha, com um problema atribulativo... Não tenho, agora, coragem de humilhar-me... EsmoIar serviço remunerado não é o ideal que me deste, e enfrentar a vergonha e a miséria será para mim pior que morrer. Não, não!. . . não desisto, nem mesmo à tua voz que, a despeito de tudo, ainda amo!... É-me impossível retroceder. ..
A comovedora cena estarrecia. Observava eu ali, o milenário conflito da ternura materna com a vida real.
A venerável matrona chorou com mais amargura, agarrou-se à filha com mais veemência e suplicou:
– Perdoa-me pelo mal que te fiz, querendo-te em demasia... O' filha querida, nem sempre o amor humano avança vigilante! Por vezes a cegueira noa compele a erros clamorosos, que só o golpe da morte em geral expunge. Não consideras. porem, a minha dor? Reconheço minha participação indireta em teu presente infortúnio, mas entendendo, agora, a extensão e a delicadeza dos deveres maternos, não desejo que venhas colher espinhos no mesmo lugar onde sofro os resultados amargos de minha imprevidência. Porque eu haja errado por excesso de ternura, não te desvies por acumulo de ódio e de inconformação. Depois do sepulcro, o dia do bem é mais luminoso, e a noite do mal é, sobremaneira, mais densa e tormentosa. Aceita a humilhação como benção, a dor como preciosa oportunidade. Todas as lutas terrenas chegam e passam; ainda que perdurem, não se eternizam. Não compliques, pois, o destino. Submeto-me às tuas exprobrações. Merece-as quem, como eu olvidou a floresta das realizações para a eternidade retendo-se voluntariamente no jardim dos capnchos amenos, onde as flores não se ostentam mais do que por fugaz minuto. Esqueci-me, Cecília, da enxada benfazeja do esforço próprio, com o qual devera arrotear o solo de nossa vida, semeando dádivas de trabalho edificante, e ainda não chorei suficientemente, para redimir-me de tão lastimável erro. Todavia, confio em ti, esperando que te não suceda o mesmo na áspera trilha da regeneração.
Antes mendigar o pão de cada dia, amargar os remoques da maldade humana, aí na Terra, que menosprezar o pão das oportunidades de Deus, permitindo que a crueldade nos avassale o coração.
O sofrimento dos vencidos no combate humano é celeiro de luz da experiência. A Bondade Divina converte as nossas chagas em lâmpadas acesas para a alma. Bem-aventurados os que chegam à morte crivados de cicatrizes que denunciam a dura batalha. Para esses, uma perene era de paz fulgurará no horizonte, porquanto a realidade não os surpreende quando o frio do túmulo Ihes assopra o coração. A verdade se Ihes faz amiga generosa; a esperança e a compreensão Ihes serão companheiras fiéis! Retorna, minha filha, a ti mesma; restaura a coragem e o otimismo, mau grado às nuvens ameaçadoras que te pairam na mente em delírio... Ainda é tempo! Ainda é tempo!
A enferma, contudo, fez supremo esforço por tornar ao invólucro de carne, pronunciando ríspidas palavras de negação, inopinadas e ingratas.
Desfazendo-se da influência pacificadora de Calderaro, regressou gradativamente ao campo senhorial, em gritos roucos.
O instrutor aproximou-se da genitora, chorosa, e informou:
– Infelizmente, minha amiga, o processo de loucura por insurgência parece consumado. Confiemo-la, agora, ao poder da Suprema Proteção Divina.
Enquanto a entidade materna se debulhava em lágrimas, a doente, conturbada pelas emissões mentais em que se comprazia, dirigiu-se à enfermeira, reclamando:
– Não posso! não posso mais ! não suporto... A intervenção, agora! não quero perder um minuto!
Fixando a companheira, por alguns instantes, com terrífica expressão, ajuntou:
– Tive um pesadelo horrível... Sonhei que minha mãe voltava da morte e me pedia paciência e caridade! Não ! não!... Irei até ao fim ! Preferirei o suicídio, afinal !
Inspirada pelo meu orientador, a enfermeira fez ainda várias ponderações respeitáveis.
Não seria conveniente aguardar mais tempo ? Não seria o sonho um providencial aviso? O abatimento de Cecília era enorme. Não se sentiria amparada por uma Intervenção espiritual? Julgava, desse modo, oportuno adiar a decisão.
A paciente, no entanto, ficou Irredutível. E, com assombro nosso, ante a genitora desencarnada, em pranto, a operação começou, com sinistros prognósticos para nós, que observamos a cena, sensibilizadíssimos.
Nunca supus que a mente desequilibrada pudesse infligir tamanho mal ao próprio patrimônio.
A desordem do cosmo fisiológico acentuou-se, instante a instante.
Penosamente surpreendido, prossegui no exame da situação, verificando com espanto que o embrião reagia ao ser violentado, como que aderindo, desesperadamente, às paredes placentárlas
A mente do filhinho Imaturo começou a despertar à medida que aumentava o esforço de extração. Os ralos escuros não partiam agora só do encéfalo materno; eram igualmente emitidos pela organização embrionária, estabelecendo maior desarmonia
Depois de longo e laborioso trabalho, o entezinho foi retirado afinal...
Assombrado, reparei, todavia que a ginecologista improvisada subtraia ao vaso feminino somente pequena porção de carne inânime, porque a entidade reencarnante, como se a mantivessem atraída ao corpo materno forcas vigorosas e indefiníveis, oferecia condições especialísslmas, adesa ao campo celular que a expulsava. Semi-desperta, num atroz pesadelo de sofrimento, refletia extremo desespero; lamentava-se com gritos aflitivos, expedia vibrações mortíferas; balbuciava frases desconexas.
Não estaríamos, ali, perante duas feras terrivelmente algemadas uma à outra ? O filhinho que não chegara a nascer transformara-se em perigoso verdugo do psiquismo materno. Premindo com impulsos involuntários o ninho de vasos do útero, precisamente na região onde se efetua a permuta dos sangues materno e fetal, provocou ele o processo hemorrágico, violento e abundante.
Observei mais.
Deslocado indebtamente e mantido ali por forças incoercíveis, o organismo perispirítico da entidade, que não chegara a renascer, alcançou em movimentos espontâneos a zona do coração. Envolvendo os nódulos da aurícula direita, perturbou as vias do estimulo, determinando choques tremendos no sistema nervoso central.
Tal situação agravou o fluxo hemorrágico, que assumiu intensidade imprevista, compelindo a enfermeira a pedir socorros Imediatos, depois de delir, como pôde, os vestígios de sua falta.
– Odeio-o! Odeio-o! – clamava a mente materna em delírio, sentindo ainda a presença do filho na intimidade orgânica. – Nunca embalarei um intruso que me lançaria à vergonha!
Ambos, mãe e filho, pareciam agora, por dizer mais exatamente, sintonizados na onda de ódio, porque a mente dele, exibindo estranha forma de apresentação aos meus olhos, respondia, no auge da ira:
– Vingar-me-ei! Pagarás ceitil por ceitil! não te perdoarei! ...Não me deixaste retomar a luta terrena, onde a dor, que nos seria comum me ensinaria a desculpar-te pelo passado delituoso e a esquecer minhas cruciantes mágoas – ... Renegaste a prova que nos conduziria ao altar da reconciliação. Cerraste-me as portas da oportunidade redentora, entretanto, o maléfico poder, que impera em ti, habita igualmente minhalma...Trouxeste à tona de minha razão o lado da perversidade que dormia dentro em mim. Negas-me o recurso da purificação, mas estamos agora novamente unidos e arrastar-te-ei para o abismo... Condenaste-me à morte, e, por isso, minha sentença é igual. Não me deste o descanso, impediste meu retorno à paz da consciência, mas não ficarás por mais tempo na Terra.. Não me quiseste para o serviço do amor... Portanto, serás novamente minha para a satisfação do ódio. Vingar-me-i ! Seguirás comigo!
Os raios mentais destruidores cruzavam-se, em horrendo quadro, de espírito a espírito.
Enquanto observava a intensificação das toxinas, ao longo de toda a trama celular, Calderaro orava, em silêncio, invocando o auxilio exterior, ao que me pareceu. Efetivamente, daí a instantes, pequena turma de trabalhadores espirituais penetrou o recinto. O orientador ministrou instruções. Deveriam ajudar a desventurada mãe, que permaneceria junto da filha infeliz, até à consumação da experiência.
Em seguida, o Assistente convidou-me a sair, acrescentando:
– Venficar-se-á a desencarnação dentro de algumas horas. O ódio, André, diariamente extermina criaturas no mundo, com intensidade e eficiência mais arrasadoras que as de todos os canhões da Terra troando a uma vez. É mais poderoso, entre os homens, para complicar os problemas e destruir a paz, que todas as guerras conhecidas pela Humanidade no transcurso dos séculos. Não me ouves mera teoria. Viveste conosco, nestes momentos, um fato pavoroso, que todos os dias se repete na esfera carnal. Estabelecido o império de forças tão detestáveis sobre essas duas almas desequilibradas, que a Providência procurou reunir no instituto da reencarnação, é necessário confiá-las doravante ao tempo, a fim de que a dor opere os corretivos indispensáveis.
– Oh! – exclamei aflito, contemplando o duelo de ambas as mentes torturadas –, como ficarão ? permanecerão entrelaçadas, assim ? e por quanto tempo ?
Calderaro fitou-me com o acabrunhamento de um soldado valoroso que perdeu temporariamente a batalha, e informou:
Agora, nada vale a intervenção direta. Só poderemos cooperar com a oração do amor fraterno, aliada à função renovadora da luta cotidiana Consumou-se para ambos doloroso processo de obsessão recíproca, de amargas conseqüências no espaço e no tempo e cuja extensão nenhum de nós pode prever.

XAVIER, Francisco Cândido. Dolorosa Perda. In: No mundo Maior. Pelo espírito André Luiz. 8 ed. Rio de Janeiro, FEB. -1979. P. 140-153