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PROGRAMA V

ROTEIRO 26

DO MANDATO MEDIÚNICO
PERDA E SUSPENSÃO DA MEDIUNIDADE

OBJETIVOS ESPECÍFICOS
Dizer quais as causas da perda e da suspensão da mediunidade.
Justificar porque a suspensão da mediunidade nem sem ore e uma punição.

IDÉIAS PRINCIPAIS I
A causa que mais influi para a perda ou suspensão da mediunidade "(...) e o uso que o médium faz da sua faculdade. (...)" (02).
''Os atributos medianímicos são como os talentos do Evangelho. Se o patrimônio divino é desviado de seus fins, o mau servo torna-se indigno da confiança do Senhor da seara da verdade e do amor. Multiplica dos no bem, os talentos mediúnicos crescerão para Jesus, sob as bênçãos divinas; todavia, se sofrem o insulto do egoísmo, do orgulho, da vaidade ou da exploração inferior, podem deixar o intermediário do invisível entre as sombras pesadas do estacionamento ( ..)." (11)
"(,..) A interrupção da faculdade nem sempre é uma punição, demonstra as vezes a solicitude do Espirito para com o médium, a quem consagra afeição (...)" (04); mas isto não significa, necessariamente, abandono do Espirito protetor (05).

FONTES DE CONSULTA.

BÁSICAS
01. KARDEC, Allan. Da formação dos médiuns. In: - . O Livro dos Médiuns. Trad. de Guillon ribeiro. 45. ed., Rio de Janeiro, FEB, 1982. Questão 220, p. 250.
02. Op. cit., questão 220 (item 3a) p. 250.
03. Op. cit., questão 220 (item 7a) p. 252.
04. Op. cit., questão 220 (item 4a), p. 251.
05. Op. cit., questão 220 (item 8a), p.252.
06. -. O Livro dos Espíritos. Trad. de Guillon Ribeiro. 57. ed. Rio de Janeiro, FEB, 1983. Questão 495, p. 256 258.

COMPLEMENTARES.
07. FRANCO, Divaldo Pereira. Amarga aventura. In:- . Depois da Vida Diversos Espíritos. Salvador, Liv. Espírita Alvorada, 1984. p, 123-128.
08. ~ .Profissionalismo na mediunidade. In: - . Seara do Bem. Espíritos Diversos. Salvador, Liv. Espirita Alvorada, 1984. p. 55-56.
09. Xavier, Francisco Cândido. Adivinhações. In: Encontro Marcado. Pelo Espirito Emmanuel. 3. ed. Rio de Janeiro, FEB, 1978. p. Z3-30.
10. -.O Consolador. Ditado pelo Espírito Emmanuel. 8. ed. Rio de Janeiro, FEB, 1980. Questões 402-411, p. 2Z3-229.
11 Op. cit., questões 389, p. 216.
12 História de um médium. In:- . Novas Mensagens. Pelo Espírito Humberto de Campos. 6. ed. Rio de Janeiro, FEB, 1978. p. 39~48.
13.-. Mediunidade transviada. In: - . Nos Domínios da Mediunidade. Ditado pelo Espirito André Luiz. 11. ed. Rio de Janeiro, FEB 1982. p. 251~257.
14.-. Médiuns transviados, In: - . Seara dos Médiuns. Pelo Espirito Emmanuel. 3. ed., Rio de Janeiro, FEB, 1978. p. 207-208.

PERDA E SUSPENSÃO DA MEDIUNIDADE
A faculdade mediúnica pode sofrer perdas e suspensões, na maioria, passageiras, qualquer que seja o tipo de mediunidade de que o médium seja portador. Isso acontece porque a produção mediúnica ocorre através do concurso simpático dos Espíritos: sem eles nada pode o médium; a faculdade continua a existir, em essência, mas os Espíritos não podem ou não se querem utilizar daquele instrumento mediúnico. (01)
Entendendo a mediunidade como um meio que Deus oferece aos homens, de reforma moral e conseqüente progresso espiritual, os bons Espíritos afastam-se dos médiuns por vários motivos. Relataremos alguns:
a) Quando o médium se serve da faculdade mediúnica para atender a coisas frívolas ou com propósitos ambiciosos e desvirtuados.
Como coisas frívolas entendemos. Por exemplo, a prática da "buena dicha" ou dos ledores de mão. Infelizmente, este desvirtuamento da verdadeira prática mediúnica existe em larga escala e, mais cedo ou mais tarde, tais médiuns terão que prestar contas ao Senhor da aplicação feita dos talentos recebidos.
Os chamados "profissionais da mediunidade", não se agastam em receber pagamentos, quer sob s forma de dinheiro, presentes, favores, privilégios ou ate mesmo dependência afetiva ou emocional. Recordemos aqui as palavras de Manoel Philomeno de Miranda Espirito: "(...) o médium, habituando-se aos negócios e interesses de baixo teor vibratório, embrutece-se, desarmoniza-se (...).
A mediunidade com Jesus liberta, edifica e promove moralmente o homem, enquanto que, com o mundo, aturde, escraviza e obsidia a criatura. (...)" (08)

B) Quando o médium não aproveita as instruções nem os conselhos que os protetores espirituais propiciam.
O Espirito protetor aconselha sempre para o bem, sugerindo bons pensamentos ou amparando nas aflições o seu tutelado mas, em situação alguma, desrespeita o livre-arbítrio de quem quer que seja, "(...) Afasta-se, quando vê que seus conselhos são inúteis e que mais forte é, no seu protegido, a decisão de submeter-se à influencias dos Espíritos inferiores. Mas, não o abandona completamente e sempre se faz ouvir. É então o homem quem tapa os ouvidos. O protetor volta desde que este o chame. (...)" (06)
.
C) Quando a interrupção demonstra uma prova de benevolência do espírito protetor para com o médium (04)
Nesta situação, há três aspectos a considerar: primeiro, quando o Espirito amigo e protetor quer provar que a comunicação mediúnica não depende dele médium e que, assim, este não se deve vangloriar ou envaidecer. Segundo, quando o médium está debilitado fisicamente e precisa de repouso. Finalmente, em terceiro lugar, a mediunidade pode ser suspensa, temporariamente, quando se fizer necessário pôr à prova a paciência e a perseverança do médium ou lhe dar tempo para meditar nas instruções recebidas dos Espíritos. (04)
Em situações destas, o médium deve buscar na resignação e na prece os recursos para retomar a prática normal da mediunidade. (03)
" (...) Os atributos medianímicos são como os talentos do Evangelho. Se o patrimônio divino e desviado de seus fins, o mau servo torna-se indigno da confiança do Senhor da seara da verdade e do amor. Multiplicados no bem, os talentos mediúnicos crescerão para Jesus, sob as bênçãos divinas; todavia, se sofrem o insulto do egoísmo, do orgulho, da vaidade, da exploração inferior, podem deixar o intermediário do invisível entre as sombras pesadas do estacionamento, nas mais dolorosas perspectivas de expiação, em vista do acréscimo de seus débitos irrefletidos . " (11 )
A N E X 0 02
EXERCÍCIO DO ESTUDO DIRIGIDO

01. Assinale somente as opções corretas.

A.( ) O profissionalismo da mediunidade não implica graves conseqüências morais.
B ( ) A faculdade mediúnica está sujeita a intermitência e a suspensões temporárias.
C ( ) Somente a mediunidade de efeitos físicos pode sofrer interrupções.
D ( ) Uma das causas da suspensão da mediunidade e o cansaço físico.
E.( ) O exercício da mediunidade e responsabilidade do homem; por isto independe do concurso dos Espíritos.
F.( ) Ante a prática mediúnica devemos ter em mente o ensinamento evangélico: dar de graça o que de graça recebemos.
G.( ) Se um médium realiza uma grande obra social e recebe dinheiro ou outras formas de pagamentos no exercício da mediunidade tem a sua conduta justificada pelos fins.
H.( ) A suspensão da mediunidade pode ocorrer como resultado de uma prova que os bons Espíritos facultam ao médium.
I. ~ ) Os "ledores da sorte" são geralmente instrumentos de Espíritos levianos, zombeteiros e, não raro, de obsessores.
J. ( )Todo médium que utiliza a mediunidade para o seu sustento material está na realidade, vendendo as suas faculdades psíquicas, e disto terá que prestar contas, mais cedo ou mais tarde, a Deus.
 

2. Enumere a coluna da direita de acordo com os enunciados à esquerda
 
01. Mediunidade com Jesus ( )Suspensão da mediunidade por debilidade física do médium
02. Suspensão temporária da mediunidade ( ) Médiuns que realizam a mediunidade fieis a Jesus e a Kardec
03. Mediunidade aviltada ( ) Mediunismo dos "ledores da sorte"
04 . Médiuns interesseiros ( ) Tráfico praticado por médiuns inescrupulosos sob a capa de pseudo-seriedade.
05 . Médiuns vitoriosos ( )Pode ocorrer quando um Espírito protetor quer testar a paciência do seu protegido 
06 Afastamento do Espírito protetor ( ) É a mediunidade que liberta. Edifica e promove moralmente o homem.
07 Os atributos medianímicos ( ) É a mediunidade que humilha, que favorece aos Espíritos fúteis, indecorosos, malvados.
08 "Buena Dicha " ( ) Ocorre quando vê, em seu protegido, a decisão de submeter-se aos Espíritos inferiores.
09 Comércio entre encarnados ( ) São aqueles que esperam receber favores à custa do trabalho mediúnico
10 Prova de benevolência do Espírito protetor ( ) Como os talentos de que nos fala o Evangelho.
( ) Comércio que será constante nos dias futuros
 
 
 

GABARITO DE RESPOSTAS DO EXERCÍCIO.

01) As opções corretas são: b, d, f, h, i, j.
02) A numeração correta é : 10, 05, 08, 09, 02, 01, 03, 06, 04, 07.

03) Responda sucintamente.
A. Quais as principais causas da perda e sus pensão da mediunidade?
B. Que atitude(s) deve o médium tomar perante pessoas que insistem em favorece-lo com presentes, favores, privilégios ou mesmo dinheiro, alegando gratidão pelos benefícios recebidos através da sua mediunidade?
C. Pode o Espirito protetor do médium abandoná-lo? por que?
 

Respostas do exercício 03.
A. Quando o médium utiliza a faculdade mediúnica para atender a frivolidades ou a propósito ambiciosos desvirtuados; quando o médium não segue as orientações ou conselhos dos Espíritos Protetores; quando ocorre por efeito da benevolência dos Espíritos Superiores.
B. Recusar delicada e firmemente. Ter sempre em mente a sentença evangélica: "dai gratuitamente o que gratuitamente haveis recebido" (Mateus, 10:8). Recordar, também, a estas pessoas que os benefícios sempre são dados por Deus.
C. Abandoná-lo jamais. Pode afastar-se, mas não o abandona completa mente e sempre se faz ouvir.
 

ANEXO 3
SUBSÍDIO PARA O DIRIGENTE.

História de um médium
As observações interessantes sobre a doutrina dos Espíritos sucediam-se umas às outras, quando um amigo nosso, velho lidador do Espiritismo, no Rio de Janeiro, acentuou, gravemente:
- "Em espiritismo, uma das questões mais sérias é o problema do médium...
-"Sob que prisma ? indagou um dos circundantes.
-" Quanto ao da necessidade de sua própria edificação para vencer o meio "
- "Para esclarecer a minha observação, continuou o nosso amigo,, contar-lhes-ei a historia de um companheiro dedicado, que desencarnou, há poucos anos, sob os efeitos de uma obsessão terrível e dolorosa. "
Todo o grupo, lembrando os hábitos antigos, como se ainda estacionássemos num ambiente terrestre, aguçou os ouvidos, colocando-se a escuta.
- "Azarias Pacheco, começou o narrador, era um operário despreocupado e humilde do meu bairro, quando as forças do Alto chamaram o seu coração ao sacerdócio mediúnico. Moço e inteligente, trabalhava na administração dos serviços de uma oficina de concertos, ganhando, honradamente, a remuneração mensal de quatrocentos mil reis.
Em vista do seu espírito de compreensão geral da vida, o Espiritismo e a mediunidade lhe abriram um novo campo de estudos, a cujas atividades se entregou sob uma fascinação crescente e singular.
Azarias dedicou-se amorosamente à sua tarefa, e, nas horas de folga, atendia aos seus deveres mediúnicos com irreparável dedicação. Elevados mentores do Alto forneciam lições proveitosas, através de suas mãos. Médicos desencarnados atendiam, por ele, a volumoso receituário.
E não tardou que o seu nome fosse objeto de geral admiração
Algumas notes de imprensa evidenciaram ainda mais os seus valores medianímicos e, em pouco tempo, sua residência humilde povoava-se de caçadores de anotações e de mensagens. Muitos deles diziam-se espiritas confessos, outros eram crentes de meia convicção ou curiosos do campo doutrinário.
O rapaz, que guardava sob a sua responsabilidade pessoal numerosas obrigações de família, começou a sacrificar primeiramente os seus deveres de ordem sentimental, subtraindo à esposa e aos filhinhos as horas que habitualmente Ihes consagrava, na intimidade doméstica.
Quase sempre cercado de companheiros, restavam-lhe apenas as horas dedicadas à conquista de seu pão cotidiano, com vistas aos que o seguiam carinhosamente pelos caminhos vida.
Havia muito tempo que perdurava semelhante situação, em face de sua preciosa resistência espiritual, no cumprimento de seus deveres.
Dentro de sua relativa educação mediúnica, Azarias encontrava facilidade para identificar a palavra de seu sábio e incansável guia, sempre a Ihe advertir quanto à necessidade de oração e de vigilância.
Acontece, porém, que cada triunfo multiplicava as suas preocupações e os seus trabalhos.
Os seus admiradores' não queriam saber das circunstâncias especiais de sua vida.
Grande parte exigia as suas vigílias pela noite a dentro, em ]longas narrativas dispensáveis. Outros alegavam os seus direitos às exclusivas atenções do médium. Alguns acusavam-no de preferências injustas, manifestando o gracioso egoísmo de sua amizade, expressando o ciúme que Ihes ia n’alma, em palavras carinhosas e alegres. Os grupos doutrinários disputavam-no.
Azarias verificou que a sua existência tomava um rumo diverso, mas os testemunhos de tantos afetos lhe eram sumamente agradáveis ao coração.
Sua fama corria sempre. Cada dia era portador de novas relações e novos conhecimentos.
Os centros importantes começaram a reclamar a sua presença, de vez em quando, surpreendiam-no as oportunidades das viagens pelos caminhos de ferro, em face da generosidade dos amigos, com grandes reuniões de homenagens, no ponto de destino.
A cada instante, um admirador o assaltava:
—"Azarias, onde trabalha você?..."
-Numa oficina de consertos."
- "Oh! oh!. . . e quanto ganha por mês"
- 'Quatrocentos mil reis . "
—"Oh! ~ isto é um absurdo... Você não é criatura para um salário como esse ! Isso é uma miséria!..."
Em seguida outros ajuntavam:
—"O Azarias não pode ficar nessa situação. Precisamos arranjar-lhe coisa melhor no centro da cidade, com uma remuneração a altura de seus méritos, ou, então, poderemos tentar-lhe uma colocação no serviço publico, onde encontrará mais possibilidades de tempo para dedicar-se à missão. "
O pobre médium, todavia, dentro de sua capacidade de resistência , respondia:
—"Ora, meus amigos, tudo está bem. Cada qual tem na vida o que mereceu da Providência Divina e, além de tudo, precisamos considerar que o Espiritismo tem de ser propagado, antes do mais, pelos Espíritos e não pelos homens!..."
Azarias, contudo, se era médium, não deixava de ser humano.
Requisitado pelas exigências dos companheiros, já nem pensava no lar e começava a assinalar na sua ficha de serviços faltas numerosas.
A principio, algumas raras dedicações começaram a defendê-lo na oficina, considerando que, aos olhos dos chefes, suas falhas eram sempre mais graves que as dos outros colegas, em virtude do renome que o cercava; mas, um dia, foi ele chamado ao gabinete de seu diretor, que o despediu nestes termos:
— "Azarias, infelizmente não me é possível conservá-lo aqui, por mais tempo. Suas faltas no trabalho atingiram o máximo e a administração central resolveu eliminá-lo do quadro de nossos companheiros."
O interpelado saiu com certo desapontamento, mas lembrou-se das numerosas promessas dos amigos.
Naquele mesmo dia, buscou providenciar para uma nova colocação mas, em cada tentativa, encontrava sempre um dos seus admiradores e conhecidos que obtemperava:
—"Ora, Azarias, você precisa ter mais calma!... Lembre-se de que a sua mediunidade é um patrimônio de nossa Doutrina... Sossegue, homem de Deus!... Volte a casa e nós todos saberemos ajuda-lo neste transe."
Na mesma data, ficou assentado que os amigos do médium se cotizariam, entre si, de modo que ele viesse a perceber uma contribuição mensal de seiscentos mil réis, ficando, desse modo, habilitado a viver tão somente para a Doutrina.
Azarias, sob a inspiração de seus mentores espirituais, vacilava ante a medida, mas à frente de sua imaginação estavam os quadros do desemprego e das imperiosas necessidades da família.
Embora a sua relutância Intima, aceitou o alvitre.
Desde então, a sua casa foi o ponto de uma romaria interminável e sem precedentes , Dia e noite, seus consulentes estacionavam a porta. O médium buscava atender a todos como Ihe era possível. As suas dificuldades, todavia, eram as mais prementes.
Ao cabo de seis meses, todos os seus amigos haviam esquecido o sistema de cotas mensais .
Desorientado e desvalido, Azarias recebeu os primeiros dez mil réis, que uma senhora lhe ofereceu após o receituário. No seu coração, houve um toque de alarma, mas seu organismo estava enfraquecido. A esposa e os filhos estavam repletos de necessidades.
Era tarde para procurar, novamente, a fonte do trabalho. Sua residência era objeto de uma perseguição tenaz e implacável. E ele continuou recebendo.
Os mais sérios distúrbios psíquicos o assaltaram.
Penosos desequilíbrios Íntimos lhe inquietavam o coração, mas o médium sentia-se obrigado a aceitar as injunções de quantos o procuravam levianamente.
Espíritos enganadores aproveitaram-se de suas vacilações e encheram-lhe o campo mediúnico de aberrações e descontroles.
Se as suas ações eram agora remuneradas e se delas dependia o pão dos seus, Azarias se sentia na obrigação de prometer alguma coisa, quando os Espíritos não o fizessem. Procurado para a felicidade no dinheiro, ou êxito nos negócios ou nas atrações do amor do mundo, o médium prometia sempre as melhores realizações, em troca doe míseros mil réis da consulta.
Entregue a esse gênero de especulações - , não mais pode receber o pensamento dos seus protetores espirituais mais dedicados.
Experimentando toda sorte de sofrimentos e de humilhações, se chegava a queixar-se, de leve, havia sempre um cliente que lhe observava:
—"Que é isso, "seu" Azarias?... O senhor não é médium? Um médium não sofre essas coisas !..."
Se alegava cansaço, outro objetava, de pronto, ansioso pela satisfação de seus caprichos
—"E a sua missão, "seu" Azarias?... Não se esqueça da caridade! . . .''
E o médium, na sua profunda fadiga espiritual, concentrava-se, em vão, experimentando uma sensação de angustioso abandono, por parte dos seus mentores dos planos elevados.
Os amigo da véspera piscavam, então os olhos, falando, cm voz baixa, após es despedidas:
—Você notou que o Azarias perdeu de todo a mediunidade?..." — dizia um deles
—"Ora, isso era esperado—redargüía-se—, desde que ele abandonou o trabalho para viver à custa do Espiritismo, não podíamos aguardar outra coisa."
—"Além disso — exclamava outro do grupo—, todos os vizinhos comentavam sua indiferença para com a família, mas, de minha parte, sempre vi no Azarlas um grande obsidiado . "
—"O pobre do Azarlas perverteu-se - falava ainda um companheiro mais exaltado - e um médium nestas condições é um fracasso para a própria Doutrina..."
— "É por essa razão que o Espiritismo é tão incompreendido!—sentenciava ainda outro.—Devemos tudo isso aos maus médiuns, que envergonham os nossos princípios"
Cada um foi esquecendo o médium, com a sua definição e a sua falta de caridade. A própria família o abandonou à sua sorte, tão logo haviam cessado as remunerações.
Escarnecido em seus afetos mais caros, Azarias tornou-se um revoltado.
Essa circunstância foi a última porta para o livre ingresso das entidades perversas que se assenhoraram de sua vida.
O pobre náufrago da mediunidade perambulou na crônica dos noticiários, rodeado de observações ingratas e de escandalosos apontamentos, até que um leito de hospital lhe concedeu a bênção da morte..."
O narrador estava visivelmente emocionado, rememorando às suas antigas lembranças. "Então, quer dizer, meu amigo—observou um de nós—, que a perseguição policia ou a ação do padre não são os maiores inimigos da mediunidade. . . "
— "De modo algum—replicou ele, convicto.—O padre e a policia podem até ser os portadores de grandes bens."
E, fixando em nós outros o seu olhar percuciente e calmo, rematou a sua história, sentenciando gravemente:
—"O maior inimigo dos médium está dentro de nossos próprios muros!..."

(recebida pelo médium Francisco Cândido Xavier, em 29 de abril de 1959)

XAVIER. Francisco Cândido. Histórias de um médium. In: Novas mensagens. 6 ed. Rio de Janeiro, FEB, 1978, p. 39-48